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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

No mundo da vida

Preciso de uma esfera pública respirável

Qual surpresa tive com o PROCON - UNIDADE BAURU, interior de São Paulo, quando muito lindamente saí para pagar as contas hoje, um dia pleno de sol e de ar úmido pós-chuva. Resolvi ir até a unidade do famoso POUPA-TEMPO para uma pulga que me pinica há tempos.

Para começo de conversa, sinto em dizer que desse episódio, hoje fico devendo fazer qualquer elogio que corriqueiramente faço à minha vivência bauruense. Pensei que determinadas cobranças de direitos, de simples consumidora, já eram corriqueiras e de fácil cumprimento dos órgãos públicos.

o objeto: cobrança de fatura enviada por e-mail, resultando em gastos de impressão, sem intermediação bancária [direta].

a justificativa: discussão da ilegalidade de cobrança de taxa de bancos por emissão de carnês - é escolha de negócios relacionada à forma em que a produtora de bens ou serviços quer garantir seu valor de troca. Lei 4.083, de 4 de janeiro de 2008, proibitiva se não me engano no Distrito Federal, e em outras localidades [código do consumidor..]

Os envolvidos: euzinha e a máquina estatal que usa o nome de DEFENSOR DOS DIREITOS DE CONSUMIDOR, PROCON-unidade Bauru, especificamente representada por um atendimento que está na ponta do sistema invisível do Estado[nesse caso, um tanto intocável e ausente para o cidadão. humpf!]

Histórico:
parte I - a cobrança bancária já vinha sendo feita desde a primeira fatura, com reclamação imediata com a prestadora de serviço, sendo pessoalmente solicitada uma explicação daquela ilegalidade. Foi um diálogo sem resultado de convencimento - os argumentos sem embasamento de uma atendente defendendo sua posição de ser uma regra da prestadora de serviço a qual não se podia argumentar. Dali, vi que nao havia o que rebater por que até o gerente sabia da lei, mas que essa lei era para outros ou para quem quisesse cumprir (forte isso)

parte II - afronta e acinte! Assim me senti quando recebi a cobrança dos serviços por e-mail pois a prestadora de serviço trocara de agencia bancária e o boleto não seria emitido naquele mês - euzinha deveria dispor de meios para pagar. A afronta: está lá a cobrança do boleto sem ter banco nenhum no meio. Acinte!

Sem estressar [tranquilinha e educada porque esse tipo de assunto exige] fui calmamente pagar o bendito boleto, cumprir o dever de um serviço que faço uso e necessito para minha condição de vivente nesta terra. Depois disso, resolvo, muito mais calma ainda, dar um 'pulinho' no atendimento do Procon para solicitar informações de como proceder e saber como questionar e resolver essa questão que, em muitas discussões públicas já era reconhecido como direito do consumidor. Depois de pegar a senha e aguardar no 4º painel à direita [só para dizer que tudo é muito chique e cheio de boas intenções] fui atendida pelo moço aparentemente alto e magro, lá pelos seus 25 anos, amarelado pela falta de sol e talvez pela iluminação local, cara de amargurado, cabelo macilento, uniformizado e sem vontade nenhuma de estar ali. Depois disso, só uma narrativa em diálogo:

Digo eu - Boa tarde [16h e pouco] meu querido atendente. Parece triste! Num fica não que me deixa preocupada, não é bom ficar chateado.
- Pois não [gelo total]
- Muito bem, vamos direto ao assunto entao. veja esta conta de serviços. venho sendo cobrada por um boleto bancário que hoje em dia, é reconhecido como ilegal, segundo interpretação do Código do Consumidor.
- Sinto muito, mas essa reclamação não justifica. O juiz daqui, que atende Bauru [frizou a cidade] interpreta não ser proibido esse tipo de cobrança. [Fechou o diálogo]
- Não acredito que nem posso questionar isso, nem o Procon vai registrar nada porque um juiz local entende algo e por isso não passa mais nada? Mas o Procon não é estadual?
- O juiz de Bauru entende que é legal
- Em todo caso? Pois, neste caso, nem há intermediação bancária. Justifica a ilegalidade..o Procon do Estado de São Paulo num existe e foi criado para defender o consumidor? Porque ele fica a mercê de uma decisão, que pode ter sido interpretada em uma outra ocasião? Você entende?
- É assim. Olha, o Procon é do Governo. - Grumpf [deu de ombros]
- Então.. criado para defender o consumidor, para questionar esse tipo de coisa.. ainda mais que tem respaldo, tem lei criada, tem lugares que cumprem isso. Por que seria diferente se eu como consumidora, e creio que mais um monte de gente discorda dessa cobrança?
- É. eu entendo, mas o juiz decide que está correto.
- Decepção com o Procon. Por isso está decaindo na opinião pública né? Já tem pesquisa dizendo isso. Agora entendi porque voce está triste.

E tenho dito, pratico minha criticidade, estou lendo Habermas, dá nisso.
Ainda vou provocar um terceiro episódio. Afinal, vou continuar a pagar o serviço por um prazo, digamos, suficiente para propor novos argumentos, procurar outras instâncias..

Sujeito cidadão num é a toa não, pacato, ou não. Tem algum grupo de discussão, situação, local, ou mais argumentos para fundamentar o terceiro episódio?

terça-feira, 13 de julho de 2010

Pastoral Afro no Brasil

Publicação interessante:
http://www.revistamissoes.org.br/artigos/ler/id/1088
http://www.cnbb.org.br/site/afro-brasileira/4082-a-superacao-do-racismo

A superação do racismo

Apesar de ter conquistado espaço, a Pastoral Afro no Brasil enfrenta resistência mesmo naquelas questões que estão de acordo com os documentos e com o magistério da Igreja. Essa é a opinião de dom Gilio Felicio, o primeiro negro a chegar ao episcopado na arquidiocese de Salvador, na Bahia, em 1998, onde criou a Pastoral Afro. Poucos meses depois foi transferido para a cidade de Cruz das Almas, a 160 quilômetros da capital baiana. Gaúcho de Lageado, diocese de Santa Cruz do Sul, dom Gilio, em 2002 passou a ser o bispo de Bagé, RS. Desde a década de 80 acompanha e participa do Movimento Negro Católico junto aos Agentes Pastorais Negros. Em 1989 começou a participar do Instituto MARIAMA, uma articulação nacional de padres, bispos e diáconos negros, do qual foi presidente por dois mandatos. Foi até 2007 o bispo coordenador da Pastoral Afro-Brasileira, na CNBB. Participando do XVI Congresso Eucarístico Nacional, realizado logo após o término da 48ª Asssembleia Geral da CNBB, em Brasília, dom Gilio falou à revista Missões.


Qual a sua avaliação sobre a última Assembleia Geral dos Bispos do Brasil?

Foi uma grande benção para nós, bispos, que pudemos nos encontrar e fazer um rica convivência em Brasília pensando as coisas que são realizadas neste coração do Brasil, que definem a vida e a missão do país para o dinamismo interno e as relações internacionais. Evidentemente, a Igreja tem uma mensagem muito rica a apresentar para que de fato o país consiga formar uma comunidade, uma pátria amada, humanamente equilibrada, espiritualmente forte, vocacionalmente fecunda e com um desenvolvimento integral para todos. Analisamos e procuramos apresentar nosso posicionamento diante desta proposta em relação à defesa dos direitos humanos, reafirmando a posição da Igreja. Ao mesmo tempo aprovamos encaminhamentos a respeito da consideração e atitude dos brasileiros diante do uso dos recursos que a natureza oferece. Lembramos a necessidade urgente da reforma agrária, da política agrícola. Encaminhamos propostas para que a CNBB tenha na sua literatura elementos que farão as comunidades refletirem, rezarem e ajudarem os governantes.

A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja e as CEBs também foram temas refletidos?

A escolha de um grande tema prioritário é para fazer com que as comunidades sejam conhecidas, estimadas e fortalecidas na missão importantíssima que têm, de ser centro de evangelização e ao mesmo tempo centros de fortalecimento da consciência cidadã e também uma fonte de garantia de uma construção a partir dessas pequenas células de uma sociedade viva, justa e fraterna. Estas são comunidades que têm também a vocação de favorecer a partir da meditação da Palavra de Deus a oração e o compromisso com os desafios, fortalecer a cultura vocacional. Isto é, na medida em que as dioceses forem favorecendo as pequenas comunidade, as CEBs e também as novas comunidades, nós teremos um serviço eficaz para o despertar das várias vocações que favoreçam uma Igreja Povo de Deus toda ministerial.

Dizem que no Brasil não há racismo. Por que então há tão poucos padres e bispos negros brasileiros?

Esta é uma questão que de certa forma foi abordada e a Assembleia aconteceu enquanto o Brasil, de certa forma comemorou, mas também procurou mostrar o significado do 13 de maio, que oficialmente é proclamado como o Dia da Abolição da Escravatura. A CNBB elaborou um documento lembrando que na memória de mais um aniversário da Abolição deve-se fazer uma reflexão muito grande. Em primeiro lugar, a Igreja precisa continuar essa caminhada bonita de libertação dos condicionamentos que foram criados no tempo da escravidão e, portanto, dos mecanismos de exclusão dos valores africanos e afro-descendentes. Ao mesmo tempo, a Igreja, a partir do Documento de Aparecida, deve lutar para conhecer, assumir, estimar e promover os valores afro-descendentes. E, claro, colocar a sua missão cristã a serviço dos negros e negras que estão necessitando de uma força, de auto-estima, do dom de Deus presente na negritude, necessitando de políticas afirmativas, enfim, de serem atendidos nas suas carências, em seus gritos por socorro, mas ao mesmo tempo, no sentido de poderem participar e oferecer, como dizia o papa João Paulo II, em Santo Domingo, os seus valores culturais para enriquecer a Igreja e a sociedade.

Como está organizada a Pastoral Afro no Brasil?

No Brasil nós temos um Secretariado de Pastoral Afro, que marca presença na sede da CNBB junto ao Conselho de Assessoria da Ação Evangelizadora da Igreja. Este Secretariado acompanha e assessora a Pastoral Afro que está presente em quase todas as dioceses do país. Evidentemente, essa Pastoral está ligada ao Secretariado Latino-Americano e Caribenho de Pastoral Afro – SEPAFRO, do qual sou o responsável. Esse Secretariado seria a Seção Afro-Americana e faz parte do Departamento de Educação e Cultura do Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM.

A Pastoral Afro encontra certa resistência em algumas dioceses. Quais seriam as maiores dificuldades?

Várias dioceses ainda não iniciaram essa pastoral exatamente em virtude desses condicionamentos da época da escravidão e da situação que pesa ainda na sociedade e na Igreja, do racismo, da discriminação racial e assim por diante. Percebemos na sociedade brasileira boa vontade com vários Centros e Entidades até em nível ministerial que estão trabalhando em favor da população negra. Mas há um longo caminho de superação desse condicionamento racista. Também, uma das dificuldades que encontramos na Igreja é a questão do diálogo ecumênico e inter-religioso. Nesse diálogo, nós não podemos fugir dos interlocutores que pertencem às religiões de matrizes africanas. Quando se estabelecem os encaminhamentos, quando esses diálogos começam, há uma resistência bastante grande. Um sonho que a Igreja tem é a inculturação da sua ação evangelizadora. Esse caminho também é bastante espinhoso, com muitas incompreensões. Evidentemente que a caminhada que se faz não é perfeita, mas há uma resistência mesmo naqueles passos que são dados e que estão absolutamente de acordo com os documentos e com o magistério da Igreja.

Se a Eucaristia é mistério tão poderoso, para suscitar a Missão, o que enfraquece o dinamismo missionário de tantos cristãos?

O pano de fundo é exatamente o que diz o Documento de Aparecida quando fala da profundidade e da verdade do Encontro com o mistério de Jesus Cristo. Na medida em que isso acontece verdadeiramente, a Ação Evangelizadora se torna eficaz. Vemos isso em outras confissões religiosas: mesmo não entendendo o mistério, as pessoas simples, entusiasmadas dão um recado que toca o coração da sociedade. Na medida em que os diversos ministérios dentro da Igreja se entusiasmarem e se deixarem dinamizar pela força do Espírito Santo na vivência da vontade de Deus, concretizando a Boa Nova de Jesus Cristo, tranquilamente acontece muita coisa bonita. Eu tenho várias experiências em periferias, nas quais muitas vezes o padre não vai, mas, alguma pessoa simples se entusiasma e vai deixando que esta luz toque o coração da vizinhança e de repente surge uma Comunidade de Base ou um movimento eclesial que passa a estabelecer uma novidade, às vezes transformando todo um edifício numa comunidade. Nem sempre o ministério ordenado dá conta da evangelização que deve acontecer. Os leigos têm um protagonismo que nós não podemos desprezar, embora, na nossa tradição católica é importantíssimo que tenhamos uma abundância do ministério ordenado.

Jaime Carlos Patias, imc, é diretor da revista Missões. Publicada na revista Missões, N. 7 Jul-Ago 2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Ciclovia

...antes de falar em construir ciclovias, falta considerar o ciclista como um cidadão.
Hoje um carro do tipo sedan passou rente ao meio-fio por onde eu estava e fui empurrada na marra para fora do percurso em que prosseguia, como uma matéria insignificante e sem direitos.
Foi uma batida leve e sem barulho pelo menos para a motorista - ainda deu para perceber que era uma distinta senhora em seu carro último tipo. Bateu o espelho retrovisor no meu corpo - causou em mim um susto desagradável - contudo, a motorista prosseguiu sem nenhuma reação, parecendo nem perceber a dobrada do espelho retrovisor do lado do carona, deixando menos uma possibilidade de visão da triste cidadã.

Imaginei os trabalhadores que usam esse tipo de transporte todos os dias em Bauru, obrigados a cumprirem horários, e a chegar nos seus locais de trabalho para as suas tarefas. Observei vários deles - pois era hora do "rush" - fazendo malarismos e solidários com a minha "empurrada" e reprovando a dita cuja que prosseguiu em seu "carrão".
O que podíamos fazer? É igual ao caso da mulher que foi assaltada dentro da delegacia, lutou com os assaltandos e o delegado ficou olhando, pensando que era briga de marido e mulher: será que ainda podemos pelo menos RECLAMAR PRO BISPO? como a mulher falou na entrevista?

Falta participação pública, reclamação continuada, mexer com os colhões do poder para que sejam cumpridos os direitos básicos de cidadania, com políticas sérias, fortalecidas e compreensíveis por todos.

Ciclista não é considerado cidadão pelo poder público nem por pessoas que usam outros tipos de transportes que, se podem, passam por cima. Falta solidariedade entre aqueles que, sendo também usuários do trânsito, poderiam somar forças para que as intervenções públicas contribuam para o cumprimento de direitos e promoção de melhorias na sociedade.

Falta a ciclovia do respeito pelo outro.

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terça-feira, 11 de maio de 2010

Desceleção*

A chacina ontem, em São Paulo, de mais de cinco moradores de rua - falando politicamente correto - não tirou o brilho da convocação dos jogadores para a copa 2010. Restou um sobrevivente que deixou, por pouco, de ser mais uma vítima, não tivesse fugido a tempo.

Três homens armados desceram de suas motos e, sem retirar os capacetes, atiraram.

Sem identificação dos assassinos, sem identificação dos assassinados.

Os jornais identificam como 'moradores de rua', 'os homens assassinados', 'as pessoas assassinadas'. Não apuraram a notícia, nao motivaram identificação, não se preocuparam em acompanhar o desenrolar das investigações. Triste fim de Policarpo Quaresma?

Agora me digam - quem são os convocados para a Copa 2010? - coletivas, debates, programas de rádio, de tevê, enquetes, debates e comunidades manifestam-se na Internet, e por aí vai. Quem se manteve em luto ou se preocupou com as famílias desses 'homens' selecionados para morrer? Será que eram somente homens e ainda jovens, já que vemos mulheres, jovens,velhos e crianças nessas condições?

Claro que um acontecimento não suplanta o outro - nem estou falando em analogia. Mas não prescinde a indiferença, a falta de solidariedade e a despreocupação de pelo menos daquele que noticia um caso desses. Foi noticiado nada mais do que um simples acontecimento da madrugada.

Pior que não é de hoje. De acordo com o jornal A Tarde, ocorreram na Bahia duas chacinas antes de completar o primeiro mês de 2010, sendo uma, com um jovem de 25 e outro de 27 anos. E há muito mais até chegarmos à inesquecível Chacina da Candelária.

Mas é dia de convocação, de seleção... A copa vem aí. Uns ficaram de fora e muitos outros entristecidos, e o povo em debate, reclamando da seleção do Dunga, que os convocados não foram uma boa escolha. Aos escolhidos, parabéns em fazer parte da seleção de convocados em meio a outros tipos de seleção de brasileiros, como aqueles que esperam pelo menos não ser o alvo do dia. Que só esperam encontrar um abrigo menos gelado, um teto menos úmido, que nem pensam em ser torcida, muito menos se terão diante de si, um aparelho de tevê para ver mais esse espetáculo verde amarelo. Linda pátria e lindas cores que disfarçam uma triste indiferença.//

*trocadilho: descida de seleção, dos sem seleção.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Minúcias éticas

As pequenas atitudes ilustram muito bem a ética que precisamos - são como pontos luminosos que, unidos uns aos outros, formam o caráter de uma pessoa, ou de uma sociedade, sendo possível fazer uma comparação com o firmamento. Há noites com tantas estrelas que seriam como as pequenas atitudes; no meio do firmamento uma bela lua, representando um grande projeto que ilumina toda a vida. Por vezes, nesse firmamento, sobrecai uma imensa escuridão como as destoantes atitudes antiéticas.

O motivo dessa metáfora surgiu outro dia quando conversava em um grupo de amigos sobre as pequenas coisas que nem precisávamos dar tanta importância, em um dia em que estamos propensos a muitas minúcias. Há dias em que nos levantamos e cuidamos de como usar desde a pasta de dente à dobradura da colcha sobre a cama; de limpar os farelos ou respingos de gomo de laranja sobre a pia; e cuidar dos salpicos de lama que insistem em permanecer no carro branco que teimamos em mantê-lo limpo. Dessas minúcias, partimos para assuntos sobre as campanhas antifome, do comprometimento social e político que devemos ter, das afetações da alma e do corpo e dos questionamentos éticos da vida.

Fui me calando e ouvindo as defesas de cada um, quando me veio à memória a imagem do firmamento que, ao longe vemos pequenos pontos luminosos mas são grandiosos planetas e outros universos. Os procedimentos éticos são assim - pequenas ações e atitudes que representam uma grandiosidade imensa diante da sociedade. É como quando se diz “o que seria dos grandes homens, não fossem os pequenos” e ainda, “são as pequenas atitudes que se constróem as grandes idéias”.

Diria até que, sem as preocupações mínimas do dia-a-dia, não teria como resolver os grandes problemas que surgem. É o preparo do espírito lutador.
A prática da ética não é feita quando lembramos de cumprir o seu manual. Os elementos de formação do caráter pela educação, seja familiar, escolar e pela vida afora, vivenciam a ética durante cada piscar de olhos de um cidadão.

Falar de ética é fácil - difícil é lembrar a constância dela em todas as nossas ações.

domingo, 9 de maio de 2010

Não é sobre filas!

Ahh! Os brasileiros e suas filas! Estão firmes e se formam desde cedo, logo na compra do pão, adentram madrugada afora nas vagas para uma consulta! Mas reclamar para quem? Dizem que é cultural. Neste país dito globalizado muitos discursam a inexistência de patrões, com incentivo para abrir o próprio negócio! Era a independência, filas nunca mais! Houve uma época que falar de qualidade total virou coqueluche do momento pelos gurus da nova ordem mundial econômica. Balela! Existem mais chefes que subordinados! Muitos mandam, poucos sabem a quem obedecer! Na verdade, existe competência só nas revistas corporativistas, a realidade é feita de indicações! Ninguém consegue vaga nem para camelô se alguém não indicar! E se fizer cara feia, a ninguém interessa o que o sujeito passou.

Pacientemente ou não, ficar três horas em uma fila faz a gente refletir um monte de situações! Ficar em fila não é sinônimo de conquistas! Por vezes, nem se consegue fazer uma consulta, nem o emprego pretendido e, no final, é mal atendido até na padaria. Filas são paredões humanos, sofridos e sem direito a reclamação porque ninguém obrigou o segundo ficar atrás do primeiro, depois chegar um terceiro,... E se reclamar, ativa a má-vontade do atendente! Faz cara feia para vê! Reclamou, bateu o punho na mesa, parede, chão ou balcão: Perigo! A pessoa atendente piora a situação do indivíduo ao insuportável. Faz ele desistir, murchar, sofrer ataques, ficar depressivo... Passo a passo, o detrás curioso olha a sua frente! O único movimento geralmente está na troca de pernas daqueles que estão em pé há horas. Ainda agradecem que a fila tem alguma formação coerente, sem aquelas rodinhas, filas duplas, acocoramentos, uns encostados, dobrados, fura-filas e todo tipo de curvas.

Com o passar do tempo, rostos murchos, desiludidos, expressão de cansaço. De vez em quando, se manifestam, zangam-se, desesperam-se e resmungam, porém ninguém os ouve sem serem surdos-mudos, ninguém os enxerga, sem serem cegos. O burburinho bate no paredão humano sem eco, sem retorno e sem vontade.

Sentada na cadeira de uma instituição pública, reflito a modalidade da fila em que me encontro: fichinha numérica na mão, fica-se livre para sentar, ir ao banheiro, distrair no ‘display’ indicativo e torcer para que ele seja menos cruel e dispare logo para chamar o número contido na ficha. Continua sendo um atendimento precário, de ignorados pela sociedade. Certa hora pensei ter ouvido frases revoltadas: – Vamos chamar a imprensa!! Vamos reclamar antes que alguém morra aqui e vire estatística! Quero ver se o prefeito vem pra esta fila! Podia vir procurar algum eleitor dele por aqui! Aí a fila ficou mais animada com tanto diálogo. Pensei em escrever uma carta pública naquela hora, citar os participantes. Mas saí do devaneio, eram diálogos meus, da minha revolta! Quando comecei a observar meus companheiros de infortúnio, percebi que falavam de programas de televisão, das feridas, dos infortúnios, falas sem sentido de grupo. Iam sendo chamados e nem olhavam para trás! Não havia nenhum lendo, nem comentando notícias. Percebi aquela apatia! A fila para todos parecia uma instituição e caso alguma notícia saísse sobre aquele caos que feria de forma silenciosa e pacata, nem entenderiam! A quem incomoda? Fiquei sem defesa tal qual pensei que indefesos eram eles... Somente eu estava incomodada?

Passadas as horas, chamaram-me a um guichê. Com cara de clemência, fui logo explicando a situação (situação esta exigida pela própria instituição onde me encontrava, que não iria mudar a minha, nem a vida do meu vizinho em nada). Depois, com cara de lesada, fiquei vendo e ouvindo carimbadas numa papelada com tudo quanto é tipo de carimbos! Dos miudinhos às pegadas de gigante. Recebi a papelada: um calhamaço com letras miudinhas e ainda ouvi a misericórdia final: retorno daqui a uma semana!